Faço tudo certo e não emagreço: o que o sono tem a ver com isso

Ilustração mostrando melatonina, filtro de luz azul, anel inteligente, smartwatch, aplicativo de sono, máscara de dormir, chá calmante, magnésio e outras estratégias usadas por pessoas com insônia antes da consulta médica.

Melatonina, óculos de luz azul, aplicativo de sono e um anel que mede a madrugada inteira. Por que tanta gente segue cansada, com fome e com o peso parado, mesmo cuidando de tudo isso.  “Doutora, eu já faço higiene do sono.” “Tomo melatonina todo dia.” “Comprei aqueles óculos que bloqueiam a luz azul.” “Meu celular entra no modo noturno sozinho.” “Meu relógio mostra quanto tempo eu fico em sono profundo. Estou até pensando em comprar um Oura Ring.” Essa conversa acontece com frequência no consultório, e quase sempre termina da mesma maneira. A pessoa olha para mim e pergunta por que continua acordando cansada, por que sente fome o dia inteiro, por que a energia acaba às três da tarde e por que o peso não sai do lugar mesmo com dieta, treino e exames em ordem. Muitos chegam achando que existe um problema de tireoide escondido ou um desequilíbrio hormonal que ninguém investigou direito. Às vezes existe mesmo, e é justamente por isso que a investigação é feita. Mas em uma parte considerável dos casos a conversa acaba indo para um lugar que o paciente não esperava: as horas em que ele acha que não está acontecendo nada. Se você chegou até aqui, existe uma boa chance de já ter tentado várias coisas. Talvez tenha ajustado a alimentação, começado a treinar de manhã, cortado a cafeína depois das quatro da tarde e passado a dormir com o celular longe da cama. Talvez tenha comprado melatonina depois de assistir a alguns vídeos sobre sono, ativado o filtro noturno da tela e investido em óculos com filtro de luz azul. Alguns pacientes chegam à consulta com meses de gráficos de frequência cardíaca, sono profundo e recuperação salvos no celular. E eu entendo perfeitamente a lógica: quando o corpo não responde ao esforço, a gente quer dados. O detalhe interessante é que muita gente está monitorando o sono com precisão impressionante e continua dormindo mal. A indústria bilionária que vende aquilo que ninguém consegue comprar O sono deixou de ser só um tema médico e virou um dos maiores mercados da área de saúde e bem-estar. Relógios acompanham frequência cardíaca e temperatura corporal durante a madrugada, aplicativos entregam uma nota de sono todas as manhãs e anéis inteligentes prometem mostrar exatamente em que fase você estava às três da manhã. US$ 11 bilhõesFoi a avaliação alcançada pela Oura, fabricante de um dos anéis de monitoramento mais conhecidos do mundo, após uma captação de mais de US$ 900 milhões em 2025. A empresa informou ter vendido mais de 5,5 milhões de dispositivos desde 2015 e entrou com pedido confidencial de abertura de capital em maio de 2026. Uma empresa que vende informação sobre sono chegar a esse patamar diz alguma coisa sobre o momento em que vivemos. Estamos medindo o descanso porque sentimos que ele está faltando. E, apesar de toda essa tecnologia, a frase mais repetida no consultório continua sendo a mais simples de todas: eu acordo cansado. O que acontece com os seus hormônios enquanto você dorme Representação esquemática do comportamento noturno de três hormônios. A melatonina sobe com o escuro, o hormônio do crescimento aparece em pulsos nas fases de sono profundo e o cortisol começa a subir antes do despertar. As curvas são ilustrativas e variam entre pessoas. Existe uma ideia bastante comum de que o corpo desliga quando dormimos, como se a noite fosse uma pausa na fisiologia. Acontece quase o contrário. Durante o sono, o organismo mantém uma agenda própria de recuperação muscular, organização de memórias, ajuste imunológico e regulação metabólica, e o National Institute of Neurological Disorders and Stroke descreve que praticamente todos os tecidos e sistemas do corpo são influenciados por esse período, do cérebro ao metabolismo, do humor à saúde cardiovascular. É mais parecido com um shopping depois que as portas fecham. Para quem passa na frente, tudo parou. Lá dentro, equipes de manutenção, limpeza e reposição trabalham a noite inteira para que o lugar consiga abrir no dia seguinte. Boa parte dessa agenda é hormonal e segue o ritmo circadiano, o relógio biológico que ajuda a determinar quando sentimos sono, quando ficamos alertas, quando sentimos fome e quando certos hormônios devem ser liberados. A luz é o principal sinalizador desse relógio. Com o escurecer, a melatonina sobe e avisa ao organismo que é hora de começar a desacelerar. O hormônio do crescimento, que participa da recuperação de tecidos, aparece em pulsos concentrados nas fases de sono profundo. O cortisol faz o caminho inverso: cai ao longo da noite e volta a subir antes do despertar, preparando o corpo para começar o dia. Por isso a diferença entre passar oito horas na cama e completar adequadamente os ciclos de sono não REM e REM importa tanto. Quando um paciente me diz que dorme oito horas e continua exausto, a pergunta seguinte quase nunca é sobre quantidade. Por que a fome parece maior depois de uma noite ruim Você provavelmente já viveu isso. Dormiu mal, tomou café da manhã e uma hora depois já estava com fome de novo. Ao longo do dia apareceu a vontade de um doce depois do almoço, o lanche no meio da tarde, algo mais calórico à noite. E a disposição para cozinhar, que já não era grande, sumiu de vez. Essa experiência do dia a dia chamou a atenção dos pesquisadores há décadas. Um estudo publicado na PLOS Medicine em 2004, com participantes acompanhados por polissonografia, encontrou uma relação entre dormir pouco e alterações nos hormônios que regulam apetite e saciedade: quem dormia habitualmente cinco horas apresentou leptina cerca de 15,5% mais baixa e grelina cerca de 14,9% mais alta em comparação com oito horas de sono, independentemente do índice de massa corporal. A leptina participa da sinalização de saciedade e a grelina, da sinalização de fome. Pesquisas posteriores mostraram que essa relação é mais complexa do que se imaginava no início, e nem todos os estudos encontraram exatamente os mesmos resultados. Mas o recado clínico se sustenta: